Relembre o primeiro “Clássico dos Milhões” em São Januário

quinta-feira, 11/02/2016


Equipes do Vasco e do Flamengo em pose para fotografia com tripulantes do avião Argos. Rio de Janeiro, 15 de maio de 1927.
Na década de 20 do século passado, a cidade do Rio de
Janeiro já era linda e ostentava o título de capital do Brasil. O futebol
estava consolidado como principal prática esportiva carioca e arrebatava
multidões pelos campos, espalhados pela metrópole desde os subúrbios até as áreas
mais “chiques” daquela que ainda almejava ser a “Paris tropical”.
O Club de
Regatas Vasco da Gama, multicampeão no remo, conquistava o campeonato do Rio de
Janeiro no ano de 1923, sendo bicampeão (invicto) em 1924. Lutando contra o
racismo e o preconceito social vigente no futebol daquele período, o Vasco
enfrentou seus clubes co-irmãos América, Bangu, Botafogo, Flamengo e
Fluminense, utilizando jogadores das camadas populares, inclusive negros, para
compor suas equipes com a intenção de conquistar títulos, romper paradigmas, não
somente servir de mero coadjuvante para campeonatos a serem conquistados pelos
ditos “grandes”.
A campanha
para construção do então maior estádio da América do Sul, o Estádio Vasco da
Gama (Estádio de São Januário), selava uma vitória definitiva sobre todos
aqueles que tentavam rebaixar o Vasco e consolidava o clube como um dos
protagonistas do futebol nacional.
Após a
inauguração de São Januário, em 21 de abril de 1927, com uma partida amistosa
contra o Santos/SP, havia toda uma expectativa para a realização do jogo que
levava as maiores multidões para os estádios. Vasco x Flamengo desde os anos
vinte do século XX é o maior clássico do Rio de Janeiro, em números e emoções.
Posteriormente, transformando-se no maior clássico nacional.
A
rivalidade entre os dois clubes remonta às regatas. Vasco e Flamengo tem em
comum o fato de possuírem suas origens no remo. Até 1926, o Gigante da Colina
ostentava 8 títulos do campeonato de remo da cidade. Enquanto isso, o nosso “co-irmão
da zonal sul”, embora mais velho, fundado em 1895, possuía apenas 3. Com o
passar dos anos, a rivalidade entre essas instituições foi se alastrando para
outras práticas esportivas, encontrando no futebol o espaço propício para
atingir o seu limite e transbordar na onda do fervor dos adeptos de cada lado.
No “esporte
bretão”, o Flamengo teve a sua divisão de futebol criada no ano de 1911, por
influência de sócios/jogadores do Fluminense. Os atletas que faziam parte da
base do campeão de 1911 se desentenderam com a diretoria do tricolor das
Laranjeiras e migraram para o clube rubro-negro, que ao invés de disputar as
divisões de acesso, iniciou o campeonato de 1912 na 1ª divisão… Desde então,
até o início de 1927, o Flamengo havia conquistado 5 títulos em 15 campeonatos
disputados.
O Vasco,
por outro lado, criou a sua divisão em 1915, ao permitir a entrada do futebol
como prática esportiva do clube através da reforma de estatuto ocorrida no
final daquele ano. Iniciando efetivamente a disputa de partidas somente em
1916, passou 7 anos nas divisões de acesso, em que estabeleceu desde o princípio uma política de “contratação” de jogadores oriundos das camadas populares, especialmente vindos do subúrbio carioca. Isso incluía atletas
negros… aqueles que eram desprezados por certos “clubes da zona sul”, pois,
para esses, o negro não possuía “valor moral” para praticar o futebol em suas
associações. Até aquela partida de 1927, o Vasco era detentor de 2 títulos em 4
campeonatos, a contar a partir de 1923, quando começou a atuar pela 1ª divisão, .
A partida
amistosa entre Vasco e Flamengo, realizada na tarde de 15 de maio de 1927, foi
organizada pela Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) e a Confederação
Brasileira de Desportos (CBD), e fazia parte do festival esportivo em homenagem
aos aviadores portugueses que estavam no Rio de Janeiro.

José Manuel
Sarmento de Beires, Jorge de Castilho e Manuel Gouveia haviam saído de Portugal
a bordo do hidroavião Dornier Wall, batizado com o nome de Argos, em 1º de
março de 1927. Sob o comando do major Sarmento de Beires, a tripulação
atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil desembarcando em Fernando de Noronha,
no dia 17 de março. Essa travessia era um marco para a aviação portuguesa. Além
disso, era mais um passo para o rompimento das barreiras que dificultavam, as já
atualmente constantes, viagens transcontinentais pela via aérea.

Os principais jornais do Rio de Janeiro destacavam o
feito dos aventureiros e havia grande expectativa para a vinda desses para a
cidade, especialmente por parte da numerosa colônia portuguesa. Após escalas em
Natal, Recife e Salvador, os aviadores chegaram à cidade do Rio de Janeiro no
domingo, dia 10 de abril de 1927.


Gazeta de Noticias, 12 de abril de 1927, p. 1. Fonte: Biblioteca Nacional

Na Capital Federal, Beires e seus acompanhantes foram efusivamente recebidos e participaram de inúmeros eventos que davam louvores à realização lusa. O Presidente da república, Washington Luís, foi um dos que renderam homenagens aos lusitanos. Dentre os eventos que se sucederam, a convite dos dirigentes do CR Vasco da Gama, coube ao major Sarmento de Beires cortar a fita inaugural do Estádio de São Januário.


Inauguração do Estádio Vasco da Gama. Revista Sportiva do Vasco da Gama, nº3, ano 1927, p. 1

Com o objetivo de angariar fundos para a compra de um novo avião para Sarmento de Beires, modelo chamado “Super-Wall”, organizou-se o match amistoso entre Vasco e Flamengo. Antes de iniciar o evento, recolheram-se donativos dentre o público presente para “financiar” tal empreitada. No intuito de realçar ainda mais o brilho daquela histórica tarde de domingo, foi colocado em disputa um “bronze”, um troféu denominado “O Pregão da Victoria”, que fora doado pelo tenente Godofredo Vidal. Dessa forma, envolto por um clima patriótico tanto de brasileiros quanto de portugueses, o primeiro jogo entre Vasco e Flamengo em São Januário “valia taça”.


Revista Sportiva do Vasco da Gama, 19 de maio de 1927, p. 18

Na “preliminar” ocorreu o encontro entre os segundos times, que terminou em 0 a 0. As equipes assim foram formadas:
VASCO – Amaral; J. Manoel e Lino; Sinhô, Tinoco e Brilhante; Nelson, Mario Mattos, Gallego, Thales e Oitenta-e-Quatro.
Flamengo – Egberto; Vital e Ludovico; Rubens, Favorino e Mello; Newton, Chagas, Gottochalk, Roberto e Barros.
Árbitro: Julio Silva
Terminada o jogo inicial, as atenções se voltaram para a realização da “peleja” principal, em que o numeroso público veria em ação os cracks de ambos os clubes. A “luta” teve início às 15:30, como o “kick-off” encaminhado pelo major Sarmento de Beires.


Revista Sportiva do Vasco da Gama, 19 de maio de 1927, p. 19

As equipes foram assim constituídas:
VASCO – Nelson; Espanhol e Itália; Nesi, Bolão e Rainha; Paschoal, Alvaro, Russinho, Tatu e Badu.
Flamengo – Amado; Orlando e Herminio; Benevenuto, Flavio Costa e Rubens; Christolino, Pastor, Fragoso, Agenor e Moderato.
Árbitro: João de Deus Candiota
A equipe vascaína “sobrou em campo”. Mesmo carecendo de reforços, estando em processo de reformulação de seu elenco e ainda sentindo os efeitos de todo o esforço financeiro para erguer o maior estádio da América do Sul, o “Gigante da Colina” venceu a partida por 3 a 1 e conquistou sobre o Flamengo o troféu “O Pregão da Victoria”. 
Os gols:
Vasco – Russinho (1), Paschoal (2);
Flamengo – Fragoso (1)

Troféu “O Pregão da Victoria”. Salão de Troféus de São Januário, 11 de fevereiro de 2016 – Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br


Troféu “O Pregão da Victoria”. Salão de Troféus de São Januário, 11 de fevereiro de 2016 – Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br


Troféu “O Pregão da Victoria”. Salão de Troféus de São Januário, 11 de fevereiro de 2016 – Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br

Neste domingo, dia 14 de fevereiro de 2016, Vasco e Flamengo voltam a se enfrentar na “Colina Histórica”. Será o 35º jogo entre as equipes em São Januário, até agora com 15 vitórias vascaínas, 9 empates e 10 derrotas. Com seus quase 90 anos, o emblemático estádio vascaíno, apesar de toda pressão contrária, é o mais digno templo para receber aquele que atualmente denominamos “Clássico dos Milhões”. Diz-se isso, tanto pela notória importância de São Januário na história social, cultural, política e esportiva do Brasil, quanto por realmente conter condições técnicas para suportar tal evento.

O embate entre esses dois clubes é de fato o maior dos clássicos brasileiros, por dois principais motivos. Primeiro, graças ao imenso número de torcedores que ambas instituições possuem, espalhados por todo o território nacional. Em segundo lugar, e principalmente por essa razão, o clássico entre vascaínos e flamenguistas foi forjado pela história desses clubes nas mais diversas arenas esportivas e espraiou-se para além desse âmbito ao longo de mais de um século de disputas, no mar e na terra. Assim, Vasco x Flamengo não é um mero simulacro de grandiosidade, tal qual determinados embates midiáticos forjados por parte da imprensa esportiva.

No Brasil existem “jogos”, “clássicos” e “Vasco x Flamengo”. Da mesma forma, existem “estádios”, “arenas” e “São Januário”.

Centro de Memória do CR Vasco da Gama