Em 22/05/2020 às 11h25


Jogadores relembram campanha do título de 98 através dos jornais da época

Por: Matheus Babo

São Januário, Rio de Janeiro

A conquista da Copa Libertadores em 98 é certamente a maior da gloriosa história do Vasco. Neste domingo (24/5), a TV Globo vai reprisar a grande decisão diante do Barcelona-EQU, às 16h, com a transmissão original: narração de Galvão Bueno, comentários de Falcão e Arnaldo Cezar Coelho e reportagem de Tino Marcos. O Site Oficial do Vasco convidou os jogadores Mauro Galvão, Odvan, Ramon, Vágner, Luizão e Donizte, que fizeram parte daquela campanha para relembrar, jogo a jogo, através de matérias do jornal O Globo da época. 

Vale ressaltar que o Club de Regatas Vasco da Gama iniciou, nesta quarta-feira (20/05), uma venda simbólica de ingressos para o segundo jogo da final da Copa Libertadores da América de 1998, contra o Barcelona-EQU. Os ingressos virtuais terão o valor único de R$ 10, e cada torcedor poderá comprar quantos bilhetes quiser. Toda a renda arrecada será destinada para pagamentos de salários do quadro de colaboradores do Clube. Confira todas as informações clicando aqui.

PRIMEIRA FASE - INÍCIO DIFÍCIL E FORÇA DE SÃO JANUÁRIO

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Mauro Galvão, capitão da time na época: "O início foi difícil. Começamos em Porto Alegre contra o Grêmio, fizemos um bom jogo, mas acabamos perdendo por 1 a 0. Nós viajamos para o México, tínhamos que enfrentar o Chivas, um bom time, jogando em casa, saímos derrotados também. Ficamos em uma situação bastante complicada. No terceiro jogo, contra o América-MEX nós conseguimos um empate e voltamos para o Brasil, para definir a classificação com três jogos em casa. Era a oportunidade de recuperar e foi o momento de decisão. E nós conversamos bastante, tínhamos consciência de que foram boas apresentações, mas é do futebol. Quando se enfrenta grandes times, decidimos junto com a comissão de que iríamos jogar de forma mais agressiva em casa, com uma marcação muito forte, no campo do adversário pra buscar abrir o placar e conseguimos isso"

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Ramon, titular naquele jogo: "Depois da estreia contra o Grêmio, nós fomos para o México e tivemos dois jogos pra fechar os jogos fora de casa no grupo. O primeiro desafio foi contra o Chivas, no Jalisco, era uma terça-feira.  E acabamos derrotados. Perdemos o Odvan no segundo tempo e eles tinham um time forte. Depois daquele jogo, ainda teríamos o America na sexta-feira antes de retornar ao Rio. Quando acabou aquele jogo, nós já sabíamos que os quatro jogos seguintes seriam decisivos, principalmente os três em São Januário"

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Ramon, autor do primeiro gol do Vasco na Libertadores: "Fazer o primeiro gol do Vasco na Libertadores é um orgulho e uma satisfação muito grande. Nós começamos mal e esse jogo se tornou decisivo. Era importante fazer pelo menos um ponto fora de casa e trazer a decisão dessa classificação para os jogos em São Januário. Esse gol foi muito importante pra mim e para que pudessemos ter tranquilidade para os jogos no Rio de Janeiro. No Caldeirão nós éramos muito fortes e vencemos os dois jogos seguintes, chegando no último já classificados"

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Donizete, melhor em campo naquele jogo: "O jogo contra o Grêmio foi muito importante. Ali começou a caminhada do título da Libertadores. Ganhamos de um time muito difícil. Foi uma atuação maravilhosa minha. Acho que uma das melhores na Libertadores. Ganhamos de 3 a 0 em casa. A torcida contou muito nessa campanha, por tudo que ela fez. O apoio que ela nos deu em São Januário"

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Luizão, autor de dois gols naquele jogo: "Nós tínhamos perdido os dois primeiros jogos. Empatamos o terceiro e teríamos três jogos em São Januário. Vencemos o Grêmio, eu fiz dois gols. E contra o Chivas foi incrível. Fiz um dos gols mais bonitos dos que marquei com a camisa do Vasco. Foi magnifíco. Uma partida incrível, São Januário lotado, a torcida empurrando a gente. Nós sabíamos que vencer esse jogo garantiria a classificação e eu tava numa noite iluminada. Sabia como o Felipe dava aquele drible curto e cruzava. Eu combinava com ele. Eu antecipei e fiz um gol no primeiro pau. O segundo foi coisa rara minha, saí driblando todo mundo e toquei pro Pedrinho, que bateu cruzado, a bola sobrou e eu conferi. Foi uma noite inesquecível pra mim, pro Vasco, porque começamos a crescer dentro da Libertadores. No jogo contra o Grêmio, a torcida comprou a ideia de São Januário ser o nosso Caldeirão"

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Mauricinho, titular no ataque naquela partida: "Esse jogo contra o América, em São Januário, o Lopes optou por colocar alguns jogadores que vinham entrando no segundo tempo como titular. Nós já estávamos classificados para o mata-mata contra o Cruzeiro, mas mesmo assim esse jogo não foi nada tranquilo. Os caras bateram bastante a ponto de eu perder a cabeça e dar até um tapa na cara de um jogador do América no final do jogo. Uma coisa que eu nunca tinha feito na minha carreira"

OITAVAS DE FINAL - DESAFIO CONTRA O ATUAL CAMPEÃO

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Luizão, autor de um dos gols da partida: "A gente estava enfrentando o atual campeão da Libertadores e sabia das dificuldades. O time sabia que tinha que ganhar esse jogo em casa de qualquer maneira, se possível sem tomar gol. Acabou que tomamos no início. Eu empatei num gol de oportunismo, de cabeça. Foi um jogo muito disputado, num calor imenso do Rio de Janeiro e foi onde começamos a embalar. O jogo de volta foi muito duro. Nunca corri tanto na minha vida como naquele jogo. Conseguimos segurar o 0 a 0. Eu falo pra todo mundo que fomos campeões da Libertadores pelo Vasco com o apoio da nossa torcida e por causa do Caldeirão que São Januário virou"

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Vágner, coringa de Lopes na conquista: "Na minha opinião o Cruzeiro era o time a ser batido. Era uma equipe que jogava junto um bom tempo, estava super entrosada. Nós, do Vasco, tínhamos sim que nos impor fisicamente, porque a qualquer momento, pela qualidade do nosso time, alguém poderia decidir. Conseguimos segurar a vantagem e garantir a classificação"

QUARTAS DE FINAL - CONFIANÇA CONTRA O GRÊMIO DE RONALDINHO

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Ramon, entrou naquele jogo para ajudar a segurar o empate: "Tive a infelicidade de me machucar no Campeonato Carioca e fiquei fora dos dois jogos contra o Cruzeiro. Lembro que, por termos eliminado o atual campeão, nós chegamos com muita força e muito motivados. Estavámos bem preparados para aquele primeiro jogo. Foi a primeira partida que eu fiz após a lesão que tive. O Pedrinho foi sensacional naquele jogo, fez um gol muito importante. Entrei na segunda etapa pra ajudar a suportar a pressão e segurar o empate. Nós sabíamos que se a decisão ficasse para São Januário, nossas chances aumentariam, porque éramos muito fortes em casa. A torcida fazia uma pressão muito grande, era um Caldeirão e mesmo com o Grêmio tendo um time forte com Ronaldinho, Ailton, Palhinha e o próprio Guilherme, nós seguramos"

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Odvan, zagueiro titular naquele jogo: "Esse jogo contra o Grêmio foi super complicado. Lá nós soubemos suportar muito bem, empatamos em 1 a 1. Trouxemos a decisão para São Januário e aqui todo mundo sabe que era complicado ganhar do Vasco. Fizemos uma pressão durante o primeiro tempo, eles não suportaram e conseguimos marcar o gol. Vencemos por 1 a 0. Foi onde nosso time fortaleceu naquela competição e esses jogos foram fundamentais na conquista. O time criou mais forças e saímos em busca do título. Graças a Deus conquistamos esse título tão importante"


SEMIFINAL - GOL DO JUNINHO, MONUMENTAL!

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Donizete, autor do gol daquele jogo: "O primeiro jogo da semifinal contra o River Plate  em São Januário o apoio da torcida foi fundamental. A torcida lotou São Januário e nos levou a vitória. Nos motivou, fez muita pressão e isso fez com que a gente saísse com a vitória. Foi um resultado importante para o jogo lá no Monumental a gente tinha uma vantagem e jogamos por uma bola. O Juninho fez aquele gol e nos classificamos"

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Vágner, entrou no segundo tempo com Juninho e sofreu a falta do gol: "Os dois jogos contra o River Plate foram de muita técnica e tática. Os dois times jogavam um futebol parecido. O primeiro jogo nós vencemos de 1 a 0 e mostrou que a volta seria bem difícil. Nós sabíamos que seria um jogo que não poderia falhar. Aquele jogo seria definido no detalhe e tanto eu, quanto o Juninho estávamos no banco. Ele entrou primeiro no lugar do Ramon, depois de alguns minutos o Lopes me chamou e me colocou no lugar do Luizão. O primeiro jogo eu atuei na lateral e não sabia em qual posição ele ia me colocar. Ele me botou no meio e falou pra quando eu tivesse a bola, ir na direção do gol. Foi o que eu fiz. Na primeira bola que peguei, fui driblando e acabei sofrendo a falta. Aí veio o Juninho, com aquela genialidade e perfeição na cobrança, o goleiro Burgos não viu nem a cor da bola. Me sinto um dos responsáveis por essa grande conquista. Me doei mesmo para o grupo atuando em três posições, menos na minha de origem"

Juninho Pernambucano, em entrevista ao Panorama Esportivo, da Rádio Globo, em 2016: "Eu até hoje nunca falei muito daquela data. Claro que eu não imaginava, depois do gol, que fosse uma garantia de que a gente ganharia com certeza a final. Saímos com muita confiança porque sabíamos que o Barcelona não era tão forte como o River. O gol, na verdade, foi um jogo que eu comecei no banco. Aquele ano foi o ano em que eu fiz a cirurgia de púbis, no início de janeiro, e demorei três, quatro meses para voltar. E quando eu voltei o time estava muito bem, eu tinha feito alguns jogos como titular, e quando todo mundo ficou à disposição do Lopes, na semifinal, ele optou pelo Pedrinho e pelo Ramon acertadamente, porque eles estavam melhor do que eu na época. E aí o primeiro jogo eu entrei em São Januário e no segundo jogo eu também entrei. O Vasco estava perdendo de 1 a 0, o time do River era muito bom, sufoco grande, e logo depois sai aquela possibilidade de falta. No Vasco eu, o Ramon e o Pedrinho éramos os batedores, nós revezávamos, mas eu peguei a bola. Era uma falta mais de longe, eu batia também, e o que eu lembro bem, é que o goleiro do River, como era uma falta de longe, ele colou muito na trave do lado esquerdo dele, como quem diz assim para mim: 'Do meu lado a bola não entra'. Porque para você fazer o gol no canto do goleiro, geralmente o goleiro tem que antecipar um pouco e você bater uma bola forte, para não dar tempo dele voltar. Mas quando ele tomou essa posição, ele disse para mim assim, ó: 'No meu canto não adianta, só por cima da barreira mesmo'. E como era distante, eu sabia que para cobrir, eu só cobria a barreira, não faria o gol. Então eu tomei um pouco mais de distância, bati na bola de baixo para cima, tomando um pouco de risco, como eu sempre gostava de fazer, e dei a sorte de pegar a velocidade e a força certa, e aí o goleiro eu acho que ele me subestimou um pouco, e isso acontece. Quando ele já partiu para pegar, a bola já estava descendo muito rápido e, com certeza, é um gol que não sai da cabeça. Não sai da cabeça de nenhum vascaíno. E eu sou muito grato a Deus por ter participado deste momento."

FINAL - CLIMA DE GUERRA EM GUAIAQUIL

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Mauro Galvão, capitão do time e autor do passe para o gol de Luizão no jogo: "Vencemos por 2 a 0 e aquele resultado praticamente assegurou o título. Tivemos uma grande atuação, segura, foi um jogo muito bom, o time inteiro foi bem. Eu, individualmente, também fui. Participei do segundo gol, dando passe pro Luizão. São Januário estava lotado, tinha gente até em cima da marquise. Foi uma época especial e de muita alegria com a camisa do Vasco. Marcou bastante. Uma lembrança que tenho era da chegada em São Januário. Quando o ônibus passava pelo Largo da Cancela, a torcida já estava no caminho do estádio e quando ele entrava na Rua São Januário não conseguia mais andar. Era muita gente. A rua lotada. O jogo começava ali, o calor da torcida, a pressão, eles foram fundamentais. Nós tínhamos uma forma de jogar em casa que deu muito certo naquela Libertadores. Era agressiva, marcando forte no campo de ataque, roubando a bola e conseguindo fazer os gols"

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Donizete: "Quando nós desembarcamos foi uma pressão danada. Nós saímos por um lado diferente do saguão principal do aeroporto. Estava impossível. Quando chegamos no hotel também não entramos pela porta principal. Me lembro que entramos pela cozinha, por trás. Os torcedores equatorianos queriam arrebentar com a gente. Fomos para o estádio escoltados. Os caras estavam furiosos, querendo ganhar no grito. Eram fogos, copos, pedra, pau... eu fiquei com medo. A gente tinha muito receio de tomar gol no início do jogo, por conta do ambiente, da pressão. A torcida fica muito próxima do vestiário. Eles jogaram fumaça e a gente trocou de roupa fora e eles cuspindo, jogando pilha... Toda aquela pressão fora de campo, dentro a gente conseguiu esfriar. Com sabedoria, inteligência, bom futebol e com gol. Luizão fez o primeiro, o meu foi uma jogada do Juninho Pernambucano, ele tocou entre a defesa, o Quiñonez tentou me segurar, mas eu coloquei o corpo e chutei entre a trave e o goleiro. Aí eu imitei a Pantera (risos) e ainda fui expulso no finalzinho, esperando no banco na ansiedade. Depois que ele apitou o final do jogo, eu corri pro abraço"

Mauro Galvão: "Nós tivemos problemas desde o primeiro minuto que pisamos em Guaiaquil. Eles passaram uma imagem para os torcedores e a imprensa de lá que tinham sido maltratados aqui, talvez pra justificar a derrota. No aeroporto e no hotel era uma barulheira insuportável. Atrapalharam nosso treino na véspera, mas sabíamos disso tudo. Era só assim que eles podiam ganhar. Como capitão, reuní o time e entramos ainda mais concentrados. Conversamos com os mais jovens, pra não entrarem na pilha. No estádio, o vestiário tinha fumaça, tinta pra atrapalhar. No campo eles atiravam pedras. Nós aquecemos no corredor do estádio. Sabíamos que nosso time era melhor e que se jogássemos futebol, o Vasco ia ganhar. Fico muito contente por ter tido a oportunidade em levantar o maior troféu que o Vasco já ganhou na história"

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Páginas da campanha retiradas do Acervo Digital do Jornal O Globo (https://acervo.oglobo.globo.com/)
Artes: Alan Gripp/Vasco

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